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CONSULTÓRIO TÊXTIL

Fiação de Lã em (Selfactina)

 

Os primórdios

1. Da fiação primitiva à Selfactina actual

Para chegarmos à actual Selfactina que hoje conhecemos temos que percorrer um longo caminho ao longo dos tempos

 

1.1 A Roca e o Fuso

Durante muitos séculos a transformação das fibras têxteis em fio esteve puramente confinada à indústria caseira e praticamente só realizada por mulheres. Os únicos utensílios utilizados na fiação eram a roca e o fuso. Com estes utensílios a mulher fiandeira, para obter o fio, principiava por colocar a rama têxtil previamente cardada na roca, depois com a mão esquerda retirava uma porção de fibras, juntava-as e colocava-as no fuso que segurava com a mão direita. Feita esta operação, a mulher, segurando a ponta do fuso entre os dedos polegar e indicador da mão direita, dava-lhe um movimento de rotação afim de que os filamentos se torcessem sobre sí mesmos e formassem assim um fio redondo; depois dava-lhe um movimento contrário de rotação eo o fio obtido era enrolado no fuso, umas vezes de baixo para cima, outras de cima para baixo.

 

1.2 O Rouet

Em princípios do Séc. XVI surgiu o Rouet, um aparelho de simples construção, com o qual se obtinha igualmente o fio por um processo idêntico ao da Roca e Fuso. Porém já existe uma força auxiliar para se mover, o que é demonstrado com o auxílio da fig.1.

Fig. 1 (Rouet)

Principiava-se por colocar na roca A, pelo sistema vulgarmente usado pelas antigas fiandeiras, a matéria têxtil que se pretendia fiar; a seguir a esta operação e com a mão esquerda, retiravam-se os filamentos agrupados em A e com a mão direita procedia-se à estiragem, dispondo as fibras de forma a formarem uma fita (ou mecha) até B, onde era introduzida no orifício aí existente saindo em C.

 

Durante o percurso BC o fio recebia torção, indo o fio já formado passar por uma série de ganchos D, que o regularizavam, e indo depois enrolar-se na canela E. Esta última recebia movimento de rotação pela polia F, que por sua vez o recebia também do volante H. À medida que a canela se enchia, a corda que lhe dava moviment€o passava para os gornes da polia G, garantindo assim a regularidade do movimento e a uniformidade da operação. Este aparelho era não era perfeito mas, como mais à frente se tentará demonstrar, o trabalho que as Selfactinas que hoje realizam é idêntico.

 

1.3 A Spinning Jenny

Por volta de 1760 Thomas Higgs iniciou o estudo de modo a ser um facto a fiação mecânica, e em 1770 Hargreeves regista a patente da Spinning Jenny, verdadeira revolução na indústria têxtil, que de início comportava 6 ou 8 fusos.

 

Fig. 2 (Spinning Jenny)

Como se pode ver na Fig. 2, um número reduzido de fusos verticais 1 dispostos numa fila são movidos por uma manivela que acciona a roda de grande diâmetro 2, a qual, por meio de uma corda, arrasta o tambor 3 que faz girar os fusos por meio de cordões.

As mechas procedentes das bobinas 4 passam através de uma prensa horizontal 5, submetida a um movimento alternativo, desde a peça /strong> até às pontas dos fusos.

Ao transladar-se a prensa (fechada) da direita para a esquerda entrega-se a quantidade de fio já torcido que vai ser enrolado no fuso. Para isso os fios baixam até ao sítio de enrolamento no fuso, com o auxílio de um arame 6 (arame guia-fios), e o troço de fio é enrolado. Após esta operação, o arame guia-fios volta à posição superior e a prensa (aberta) recua, fornecendo para torção um novo troço de mecha. A Spinning Jenny só produzia fios grossos, mas com a torção desejada.

 

1.4 A Mule jenny

O verdadeiro criador da máquina intermitente de fiar foi Samuel Crompton, que em 1775 inventou a célebre Mule Jenny. A Mule Jenny tem já todas as características de uma Selfactina actual : os fusos encontram-se situados na parte móvel da máquina (carro ou carruagem) e a alimentação faz-se por meio de cilindros de alimentação. A Fig. 3 representa a Mule Jenny accionada manualmente.

 

Fig. 3 (Mule Jenny)

Os fusos situados no carro são inclinados em relação aos cilindros de alimentação, da mesma maneira que, mais tarde, aparecem nas Selfactinas. O comando dos fusos vê-se perfeitamente na figura.

Um operário fazia girar o volante 2 e o fiandeiro movia o carro no seu percurso alternado e guiava à mão o arame guia-fios durante a entrada do carro (enrolamento do fio). Com o evoluir da revolução industrial estas máquinas começaram a ser movidas por força motriz e, com mais alguns desenvolvimentos na Mule Jenny, chegamos finalmente à Selfactina.

 

 

A SELFACTINA

1. As modernas Selfactinas são quase totalmente utilizadas na fiação de fibras curtas (cardado), pois desde há vários anos que a Selfactina foi substituída pelos contínuos de fiação na fiação de fibras longas (penteado).

 

1.1 Partes constituintes de uma Selfactina

As partes fundamentais da Selfactina são a cabeça, onde está colocado todo o movimento de transmissão da máquina; a bancada (carro ou carruagem), que suporta as bobinas de mecha saídas do sortido de cardação e que é a parte móvel da máquina; os fusos, que se encontram fixos numa estrutura a todo o comprimento da máquina.

 

1.2 O ciclo de fiação da Selfactina

Período 1: Os cilindros de alimentação fornecem um certo comprimento de mecha, ao mesmo tempo que o carro onde estas se encontram se afasta lentamente dos fusos. Neste período os fusos já se encontram em rotação, a cerca de 1350-1500 r.p.m. (1ª velocidade). Neste período o arame guia-fios está situado sobre os fios (situado paralelamente às pontas dos fusos) e o arame compensador, que serve para manter constante a tensão dos fios ao serem enrolados, encontra-se neste período debaixo dos fios. Nas figuras seguintes notam-se perfeitamente a posição dos arames neste período.

Período 2: Quando a mecha necessária já foi toda fornecida, a alimentação pára, mas o carro continua a afastar-se dos fusos, de maneira a dar-se a estiragem do fio. Neste período os fusos giram a cerca de 3000-3500 r.p.m. (2ª velocidade).

 

 

Período 3: O carro está em repouso e os fusos giram a cerca de 5500-6000 r.p.m., o tempo suficiente para que o fio adquira o valor de torção desejado (torção suplementar). Durante os períodos 2 e 3 o arame guia-fios e o arame compensador continuam na mesma posição do período 1.

 

Períodos 4 e 5: Despontado e entrada do carro

Nestes períodos dá-se o enrolamento do fio produzido nesse ciclo, ao mesmo tempo que se faz a entrada do carro (regresso à posição inicial). Para isso os fusos giram no sentido contrário ao da torção, enquanto que o arame guia-fios baixa rapidamente até ao sítio de enrolamento na bobine de fio, e o arame compensador se situa debaixo dos fios, mantendo-os em tensão. Em seguida começa a fazer-se o enrolamento do fio : o carro move-se em velocidade crescente, que depois diminui, em direcção aos fusos. À medida que se faz o enrolamento, o arame guia-fios sobe lentamente até ao vértice da bobina e, no final, rapidamente até à posição do período 1. O arame compensador no final da entrada do carro volta à posição do período 1.

 

 

Fiação da lã (em Selfactina) nos tempos actuais

Esta máquina é referenciada como requerendo maiores conhecimentos por parte dos técnicos afinadores responsáveis, e também como requerendo mais mão de obra do que o Contínuo de Fiação.

Contudo, é geralmente considerado que fios mais finos podem ser fiados em Selfactinas, e isto é provavelmente devido à vantagem que advém do facto de a estiragem ser efectuada pelos fusos, ao contrário do trem de estiram do Contínuo de Fiação (estiragem feita por rolos), e também às mais baixas tensões de estiragem envolvidas.

 

A velocidade média de fiação de uma Selfactina é de cerca de 12 metros/min, cerca de metade da de um Contínuo de Fiação, devido principalmente ao facto de a operação ser intermitente, e isto faz compensar o facto de existir maiores quebras no Contínuo de Fiação (baseado na quantidade de fio produzida).

 

Esta possibilidade e as menores tensões de fiação na Selfactina contribuem para se poder considerar viável a fabricação de fios finos e/ou mais macios. Alguns investigadores fazem a apologia da fiação de fios de maior regularidade na Selfactina do que no Contínuo de Fiação, e esta é a razão mais frequentemente apontada para alguns sectores da indústria de fiação de fios de lã cardados apostarem ainda na fiação em Selfactina e ainda estão preparados para instalar novas fiações deste tipo.

 

 

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